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Versos cantados em português, inglês, espanhol, francês e até em italiano. Arranjos que flertam com o pop nostálgico dos anos 1960, esbarram na música eletrônica, incorporam temas regionais e ainda encontram no rock um curioso alicerce. Versátil, assim pode ser encarado o som que abastece cada uma das canções de Miocárdio (2016, Independente), primeiro registro em carreira solo do músico Filipe Barros e uma das peças mas delicadas da recente safra da música pernambucana.

Mais conhecido pelo trabalho como integrante do Bande Dessinée, Barros, que aqui se apresenta como Barro, sem o “s”, parece costurar grande parte das experiências acumuladas em mais de uma década de atuação dentro da cena de Recife. Em cada uma das doze faixas do registro, fragmentos poéticos e instrumentais que mergulham em diferentes épocas, estilos e tendências musicais específicas. Um imenso jogo de experiências que dialoga diretamente com a colorida imagem de capa do álbum.

Acompanhado de perto pelo produtor Gui Amabis – artista que já trabalhou com nomes como Céu e Lucas Santtana –, Barro finaliza uma obra marcada em essência pelos detalhes. O arranjo de cordas em Despetalada e instrumentos de sopro na pegajosa Ficamos Assim. Sintetizadores e guitarras coerentemente encaixadas em Mata o Nego, a coleção de temas eletrônicos de Piso Em Chão de Estrelas. Da abertura ao fechamento do disco, um rico catálogo de texturas e colagens musicais.

Parte expressiva desse resultado vem da ativa interferência de um coletivo de artistas durante toda a formação da obra. Junto do músico, nomes como o baixista Dengue (Nação Zumbi), William Paiva, Rodrigo Samico, Jam da Silva, Gilú, Maurício Fleury e Ed Staudinger, este último, parceiro de Barros desde a Bande Dessinée e responsável pelos teclados que preenchem o disco. O resultado está na construção de um trabalho musicalmente diverso, inédito a cada nova composição.

Dono de uma poesia descomplicada, acessível aos mais variados públicos, Barro expande ainda mais o trabalho ao criar pequenos duetos durante grande parte da obra. Cantando em francês, surge Juçara Marçal em Novelles Vagues. Dentro da eletrônica No Era, os versos em inglês da canadense Lisa Moore, da banda Blood and Glass, enquanto Serena Altavilla colabora na versão em italiano do hit Vai. O destaque acaba ficando por conta da bem-sucedida parceria entre o músico e Catalina García na romântica Volver, música que acaba lembrando o encontro entre Lenine e Julieta Venegas em Miedo.

Produzido em um intervalo de dois anos, Miocárdio revela ao público o completo envolvimento de Barros e do time de colaboradores em torno da obra – “amigos” como o músico define no vídeo de apresentação do disco. Ao fundo de cada composição, melancólicas histórias de amor (Despetalada), confissões românticas (Mata o Nego) e instantes que detalham a herança cultural do artista (Piso Em Chão de Estrelas). Versos, instrumentos e vozes vindas de diversas partes do mundo, fazendo do álbum um precioso refúgio criativo.

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